Um clássico ofuscado

Xingamento racista de torcedor contra Gabigol mancha o Fla x Flu.

Ricardo Nogueira Viana (*)

Em vários ciclos da história contemporânea, o esporte fincou balizas e se posicionou diante do preconceito racial. O futebol, de origem inglesa, foi incorporado ao Brasil no início do século XX, pela elite dominante à época. Praticado por uma maioria branca, evoluiu paulatinamente, ao ponto de hoje não se questionar que a bola e o brasileiro, um povo miscigenado, formam uma dupla inseparável. 

Mais do que uma manifestação cultural, esta prática esportiva se traduz em movimento, onde emoção e razão nem sempre andam em sintonia. Desde uma simples pelada em um campo de várzea ao esporte de resultado – de alto rendimento, dentro das quatro linhas circula dinheiro, onde expoentes são idolatrados por torcedores e seguidores. 

Um país em que 56% da população é formada por negros e pardos, estes se destacam como ídolos em quadras e gramados. Mas, mesmo diante do status que ostentam, não escapam da ira de alguns tolos, estultos e preconceituosos. 

“Até quando? Até quando isso vai acontecer sem punição? Jamais vou me calar, é inadmissível que passemos por isso! Orgulho da minha raça, orgulho da minha cor!”.

Moïse

 Essas palavras não foram proferidas pelo congolês Moïse, 24 anos, assassinado mediante violência física após cobrar uma dívida trabalhista. Tampouco por Durval Teófilo, 38, alvejado por três tiros por um sargento da Marinha no momento em que entrava no condomínio onde morava. Até porque estes não tiveram tempo de respirar nem de falar. A frase foi pronunciada por Gabriel Barbosa, o Gabigol, atacante do Flamengo e da Seleção Brasileira, após ser chamado de macaco por um torcedor do Fluminense. 

Não é a primeira vez que jogadores são submetidos a este tipo de tratamento por parte dos torcedores brasileiros. Rememoro o episódio ocorrido em 2012, em que Wallace Souza, jogador de vôlei, foi chamado de macaco por uma torcedora durante uma partida entre Cruzeiro e Minas. Em 2014, o goleiro Aranha, após grande atuação que culminou com a vitória do Santos por 2×0 sobre o time gaúcho, uma torcedora o chamou de macaco, enquanto seus partícipes imitavam o som do primata.

Muda-se o cenário, mas o enredo é o mesmo, não a bola, mas o racismo. Há de se pensar se o preconceito aumentou entre os brasileiros. Não, ele somente se evidenciou, tornou-se célere e flagrante, graças ao potencial dos meios de comunicação disponíveis. Sim, hoje, com um clic, uma notícia ou agressão ganha o mundo e repercute, seja em um campo de futebol, em uma residência ou lanchonete. 

Como sujeito passivo dessa chaga, encontra-se o negro, escravizado, liberto, mas não amparado, vivendo até hoje sob a égide de uma falsa democracia racial. O futebol, no seu momento sublime, o gol, simboliza alegria, expressão do ser, júbilo e êxtase. Esse mesmo esporte já protagonizou momentos de ruptura na aristocracia que dirigia a liga carioca de futebol nos anos 1920.

Cito o hoje combalido Clube de Regatas Vasco da Gama, o qual promoveu o documento conhecido como Reposta Histórica. Em 1924, o time, que vinha em ascensão, formado por operários, recusou-se a disputar a divisão principal do Rio de Janeiro sem os seus jogadores negros, exigência imposta pelos dirigentes da época. Após este movimento de resistência, o Vasco foi admitido em 1925 e ajudou a abrir portas aos afrodescendentes na seara esportiva. Daí pode-se dizer que eclodiram Pelé e tantos outros.

É inadmissível que ainda passemos por isso, mas é o que vige. O racismo permeia em todos as classes sociais e, em um momento de comparação ou competição, quando um ser desprezível não vence no campo das ideias ou nas esferas afetiva ou motora, tende a diminuir o próximo pela cor da pele.

A repercussão se deu pelo fato de não estarmos falando de um afrodescendente miserável, habitante de favelas e cadeias, trabalhador de um quiosque ou que chega à noite em seu condomínio com uma mochila nas costas, mas, sim, de um milionário que fez fortuna com o seu suor. 

Seria hora de execrar a torcida tricolor? Não! Deve-se penalizar o Brasil, Estado que falhou em carrear políticas públicas aos afro-brasileiros e também chafurdou ao não dar educação a essa gente tacanha, vil, funesta, que diante das suas agruras e frustrações, menospreza os seus semelhantes, seja ele rico, famoso ou um simples cidadão, por conta da sua origem.

(*) Delegado-Chefe da 6ª DP e professor de Educação Física

Fonte: Brasília Capital

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